
Entre as recomendações da Secretaria de Estado da Saúde do Paraná para prevenir quedas em pessoas idosas, uma se destaca por não ter nada a ver com barra de apoio ou tapete: a revisão periódica dos medicamentos com a equipe de saúde.
A razão é direta. Quedas levaram 13.077 idosos à internação no Paraná em 2025, com 412 óbitos. E boa parte dos fatores de risco não está no chão da casa: está na caixinha de comprimidos.
O que é polifarmácia
É o uso simultâneo de vários medicamentos pela mesma pessoa — situação comum em quem tem hipertensão, diabetes, artrose, insônia, ansiedade e alguma doença crônica ao mesmo tempo, cada uma acompanhada por um especialista diferente.
O problema raramente está em um remédio isolado. Está no conjunto:
- efeitos que se somam — dois medicamentos que dão sonolência produzem uma sonolência maior que a soma esperada
- interações entre substâncias
- cascata terapêutica: um remédio provoca um efeito colateral, que é tratado com outro remédio, que provoca outro efeito
- duplicidade: dois medicamentos com o mesmo princípio ativo e nomes comerciais diferentes, prescritos por médicos distintos
Como isso vira queda
Os grupos que mais aparecem associados a queda em pessoas idosas são os que atuam no equilíbrio, na consciência e na pressão:
- calmantes e indutores do sono
- antidepressivos e antipsicóticos
- anti-hipertensivos, quando derrubam a pressão ao levantar
- diuréticos, que aumentam as idas ao banheiro à noite
- alguns antialérgicos e relaxantes musculares
O mecanismo é quase sempre o mesmo: a pessoa acorda de madrugada, levanta rápido, a pressão cai, a vista escurece, e não há apoio no caminho.
A rotina que reduz o risco
- Manter uma lista única e atualizada com todos os medicamentos, dose e horário, incluindo os que ninguém considera remédio: fitoterápicos, chás, suplementos, colírios, pomadas e o que se compra sem receita.
- Levar essa lista a todas as consultas, com todos os médicos. É o que permite ao profissional enxergar o conjunto.
- Perguntar, a cada consulta, o que ainda é necessário. Nem toda medicação iniciada há cinco anos continua indicada.
- Levar a lista ao farmacêutico da unidade de saúde ou da farmácia, que pode identificar duplicidades e interações.
- Não suspender nada por conta própria. Alguns medicamentos exigem retirada gradual e a interrupção abrupta é perigosa.
- Registrar sintomas novos com data. Tontura, sonolência, confusão, queda ou desequilíbrio que começaram depois de uma mudança de receita são informação clínica, não coincidência.
- Usar organizador semanal e conferir se a dose foi realmente tomada — não apenas entregue.
O acompanhamento na Unidade Básica de Saúde é o caminho recomendado pela Sesa, que também disponibiliza medicamentos para tratamento de osteoporose pelo SUS.
O papel de quem acompanha em casa
O cuidador não prescreve, não suspende e não altera dose. O que ele faz — e que muda o desfecho — é observar e registrar: a que horas a pessoa ficou sonolenta, quando teve tontura, se comeu antes do remédio, se dormiu à tarde, se levantou desequilibrada. Esse registro, levado à consulta, costuma ser o que permite ao médico enxergar o padrão.
Sobre o que o cuidador pode e não pode fazer com medicação, detalhamos em cuidador ou técnico de enfermagem.
Perguntas frequentes
Remédio pode causar queda em idoso?
Sim. Medicamentos que provocam sonolência, tontura ou queda de pressão aumentam o risco de queda, e o efeito se soma quando várias medicações são usadas ao mesmo tempo. Por isso a Secretaria de Estado da Saúde do Paraná inclui a revisão periódica de medicamentos entre as medidas de prevenção.
O que é polifarmácia?
É o uso simultâneo de vários medicamentos pela mesma pessoa, situação frequente em idosos acompanhados por diferentes especialistas, com risco de interações, duplicidades e efeitos somados.
Posso suspender um remédio que parece estar fazendo mal ao idoso?
Não por conta própria. Alguns medicamentos exigem retirada gradual e a interrupção abrupta pode ser perigosa. O caminho é levar o registro dos sintomas ao médico e discutir o ajuste.
Cuidador pode mudar o horário ou a dose da medicação?
Não. O cuidador auxilia na administração de medicação por via oral já prescrita e separada, e registra o que observa. Qualquer alteração de dose ou horário é decisão médica.